Este texto acerta no alvo: há um Portugal que cozinha em lume brando — os que trabalham, cuidam e mantêm o país a funcionar — e outro que regula e decide longe do calor real das cozinhas e dos hospitais. É inaceitável que a contribuição e o risco sejam quase exclusivamente dos trabalhadores enquanto lucros, falhas e resgates são muitas vezes socializados sem responsabilização adequada. Concordo com a denúncia da carga fiscal que recai sobre salários médios, da precariedade das compensações sociais e da lentidão da justiça administrativa — tudo sinais de um Estado que protege pouco quem precisa e demais de quem já tem poder. Mas não vale resignar-se: é preciso recuperar soberania democrática sobre a economia. Taxar rendas e grandes fortunas, fechar portas a esquemas de elisão, exigir responsabilidade penal e civil aos gestores que levaram bancos e empresas à ruína, e usar esses recursos para reforçar o SNS, a escola pública, os cuidados de infância e os tribunais são escolhas possíveis. Também urge inverter prioridades: investimento público que crie emprego digno e serviços universais, acelerar processos judiciais com recursos e digitalização, melhorar subsídios de desemprego e indemnizações que reconheçam carreiras de vida, e proteger quem emigrou ou imigraram e são essenciais para as pensões e para a economia. Se não reformarmos a política fiscal, a governação e a arquitetura do nosso Estado social, este lume brando continuará a queimar os mesmos — e a impunidade a aquecer quem menos devia. É hora de políticas que ponham o calor do trabalho no centro das decisões, não nas contas dos que menos têm.