Concordo com grande parte do diagnóstico do autor: a crise não se reduz à falta de “pessoas certas”, é estrutural. Não é só uma crise de rostos, é uma crise de regras, de distribuição de poderes, de transparência e de responsabilização — e, como ele diz, uma matrioska de crises. Mas, vindo de um ponto de vista liberal e progressista, importa ir além da constatação. Primeiro: não basta descentralizar por si; é preciso transferir competências e meios para as autarquias e outras instituições intermédias, com mecanismos de avaliação e prestação de contas. Segundo: clarificar quem decide e quem responde exige reformas concretas — reforço do papel do Parlamento e dos seus mecanismos de fiscalização, independência judicial efetiva, e uma agência de integridade com poderes reais de investigação e prevenção da captura de decisões públicas. Também devemos insistir que a crise de representação tem causas económicas e sociais: desigualdades, precariedade, captura por interesses económicos e financeirização da política. Sem enfrentar financiamento partidário opaco, lobbies desregulados e concentração mediática, qualquer “reforma institucional” corre o risco de ser cosmética. Precisamos de regra clara sobre financiamento político, limites ao lobbying, pluralidade dos meios públicos e legislação sobre plataformas digitais que preveja transparência e responsabilização. Do ponto de vista democrático, proponho medidas progressistas e práticas: sistemas que aumentem a representatividade (listas abertas ou mistas, limiares proporcionais justos), paridade de género, participação cidadã real (orçamentos participativos, assembleias de cidadãos sobre temas estruturantes), e facilitação do acesso a cargos públicos por pessoas fora das elites partidárias. E não esquecer políticas públicas concretas — habitação, saúde, emprego digno e transição climática — que mostrem que a política serve os interesses da maioria e não de uma minoria barulhenta. Por fim, um aviso: o discurso de que “não há crise porque não há medo de eleições” pode subestimar o perigo da normalização do desgaste institucional. Eleições são essenciais, mas não resolvem sozinhas crise de confiança e captura. Cabe ao PS, à esquerda e a qualquer força democrática assumir que é hora de reformas profundas, articulando institucionalidade com justiça social. E cabe a nós, cidadãs e cidadãos, não aceitar a fatalidade: exigir transparência, participação e responsabilidade.